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O FUTURO DA ODONTOLOGIA
Atenção primária odontológica em gestação

A inclusão definitiva da saúde bucal na atenção primária é imperativa para oferecer bem-estar pleno e duradouro à população. Para isso, são necessárias medidas simples, econômicas e pontuais na formação dos profissionais e na orientação das mães, grandes responsáveis pelos primeiroscuidados aos bebês


Sônia Groisman, da UFRJ

Ações de atenção primária em saúde, como a vacinação e o aleitamento materno, têm sua importância como formas de promoção de saúde infantil e, conseqüentemente, de prevenção de doenças já bastante propagada e colocada em prática pela população e pelos profissionais da área no Brasil. Mas o mesmo nível de reconhecimento e aceitação não recebem as medidas de promoção de saúde bucal aplicadas desde a primeira infância - e até desde a gestação -, essenciais para garantir o bem-estar pleno do indivíduo, não só nesta fase, mas ao longo de sua vida.

Para Roberto Braga de Carvalho Vianna, mestre em Odontopediatria pela Universidade de Indiana (EUA), doutor em Odontologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente eleito da Federação Dentária Internacional (FDI), a incorporação e conscientização dessas ações no campo da Medicina foi mais efetiva, pois os programas de puericultura e materno-infantil, associados à Pediatria, rapidamente começaram a incluir e popularizar a atenção primária em saúde. E ele dá exemplos: “Existe a educação das mães a ponto de que elas percebam numa diarréia ou num chiado no peito a possibilidade de uma doença e, a partir disso, preparem um soro caseiro ou procurem ajuda médica”.

Na Odontologia, no entanto, esta cultura ainda não está bem estabelecida, em grande parte devido a falhas na formação do cirurgião-dentista e dos profissionais da saúde em geral. “O simples fato de a criança nascer sem dentes não significa que não teríamos nada a cuidar e nada a promover para a sua saúde bucal. A cavidade oral e os dentes devem ser priorizados da mesma maneira que as vacinas são priorizadas nos primeiros anos de vida da criança”, afirma Vianna.

Saúde de mãe para filho

Falar de promoção e atenção primária em saúde bucal é também falar de Puericultura Odontológica, termo usado para definir o cuidado com a saúde bucal do bebê no âmbito familiar. Neste contexto, a mãe, inevitavelmente, entra como protagonista, tornando-se responsável por pequenas e eficazes ações. “O simples ensinamento à mãe de que a ponta de uma fronha molhada pode fazer a higiene da boca do bebê, prevenindo uma infecção comum como o sapinho, ou candidíase, ou ainda uma forma de cárie de grande virulência, conhecida como cárie de mamadeira, muito contribuiria para o bem-estar da criança e para o fortalecimento da relação materno-infantil”, exemplifica o odon­topediatra.

A professora adjunta e coordenadora da Especialização em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Cariologia pela Universidade de Lund (Suécia) Sônia Groisman também lembra a importância dessa relação e da orientação constante das mães, pois “elas são as principais responsáveis pela promoção e saúde bucal das crianças, assumindo cuidados com a higiene bucal, alimentação, educação, formação dos hábitos, podendo ser consideradas principais agentes multiplicadores de ações educativas em saúde”. Além deste fator social determinante, bastante forte, inclusive no Brasil, a especialista destaca que a cadeia materna é fonte de possível transmissão de diversos grupos microbianos.

“Os Estreptococos do Grupo Mutans (EGM) podem ser transmitidos pela saliva e, na maioria dos casos, a fonte de infecção é a mãe, ou os avós maternos, uma vez que os bebês reconhecem as bactérias de suas mães como suas próprias não desenvolvendo anticorpos contra as mesmas, provavelmente por fatores imunes transferidos passivamente de mãe para filho.” Esta transmissão se dá pelo contato salivar direto, principalmente ao beijar os bebês na boca, ou pelo uso comum de utensílios e talheres, e acontece com mais facilidade num período chamado janela de infecti­vidade, que vai dos 19 aos 31 meses e no qual o bebê ou a cri­an­ça está mais suscetível.

Sônia também explica que quanto mais cedo ocorrerem os contatos salivares e maiores sua freqüência e o número de grupos bacterianos presentes na fonte transmissora, maior ainda é o risco de contaminação e desenvolvimento de lesões ca­rio­sas. Assim, além de evitar o contato salivar direto ou indireto, é fundamental que mães e avós, especialmente, também sejam orientadas e motivadas a cuidar de sua própria saúde bucal, fazendo a higiene correta, controlando o consumo de saca­rose e passando por tratamentos odontológicos, para reduzir seus níveis salivares de EGM, já desde a fase de gravidez.

Prevenção para toda a vida

Os cuidados que mães e familiares próximos devem tomar para evitar estes tipos de transmissão são denominados Prevenção Primária Verdadeira, quando o bebê ainda não teve contato com a microbiota cariogênica, e Prevenção Primária, quando ele já foi contaminado. “Os trabalhos evidenciam que ao prevenir a doença cárie seguindo os conceitos de prevenção verdadeira e primária estabelece-se uma boa saúde na infância, que perdura ao longo da vida, gerando adultos saudáveis”, conclui Sônia.

Além deste relevante papel, o odontopediatra Roberto Vianna também destaca as medidas de atenção primária em saúde pelo seu baixo custo diante dos grandes benefícios. “Estas ações promovem a saúde do indivíduo e ainda possibilitam ao Estado uma economia significante nas verbas públicas, que podem ser remanejadas para intervenções mais sofisticadas, ou para áreas afins, como a educação.”



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